A Rosa Vermelha

 

Num bairro elegante da cidade moravam o Dr. Monteiro com sua mulher e três filhos. Eles eram admirados na vizinhança e na igreja pela família perfeita – educados e gentis.

Dr. Monteiro era Diretor executivo de uma grande instituição. Ele tinha tudo para que seu lar fosse, assim, feliz. Porém, o conflito e brigas em sua casa não eram tão raros assim, e gravíssimas! Invariavelmente os desentendimentos giravam em torno do ciúme excessivo com sua mulher.

Para acumular ainda mais um grande mal estar na família, os furtos pelo filho mais velho já fizeram a família perder um apartamento, um carro de luxo e um jet ski além de outras pequenas quantias para pagar dívidas. Pior: ele já havia se envolvido em um latrocínio no posto de gasolina da cidade. Jurava que não tinha feito o disparo que matou o frentista do posto de gasolina. Entretanto, a perícia descobriu que partiu dele os disparos. Dos três ele era o mais arredio, falava pouco, mas não debochava de quem ia a igreja. Criticava, zombava dos crentes, mas só por farra. Intimamente ele admirava os crentes pela fé e pelos preceitos bíblicos.

Mas quando era advertido pelo seu pai, ele o contra-atacava com faca, tesoura… Não foram poucos os dias em que faltou pouco, muito pouco para sangrar o seu próprio pai quando este o ameaçava de tirar seu nome dos herdeiros se não parasse com aquelas dívidas.

Dr. Monteiro também, por sua vez, não demonstrava muito carinho pela família. Com jeito duro e nada sensível, se dirigia aos filhos ou esposa com frases curtas, achando serem suficientes e conclusivas para cada assunto.

Entretanto, se destacava pela sua elevada “generosidade para com os outros”. Não media limites nas contribuições financeiras para a igreja, instituições sociais da prefeitura e em outras instituições humanitárias.

Num dos cultos do domingo a noite Dr. Monteiro chegou bem mais cedo para o culto, logo procurou um conselheiro para um desabafo.
Cabisbaixo, voz inexpressiva e com expressão de grande amargura. Decidiu revelar o seu drama, e foi direto ao assunto: a esposa – há muitos anos – não o procurava para sexo. Isto me deixava enraivecido – disse. Apesar que ele foi superficial no seu drama de vida, havia um motivo pra isto: a sua esposa tinha um namorado bem mais novo que ele e ela “sumia” em alguns finais de semana. O impulso sexual dela tinha um destino.

O conselheiro recitou alguns versículos bíblicos decorados, quase como um “play” de gravador e logo encerrou a conversa por que ele, o conselheiro, tinha que estar no ensaio do grupo de louvor.
No trabalho da esposa do Dr. Monteiro já era costume entre colegas do departamento ver suas atitudes sensualizadas e roupas excessivamente insinuantes. Alguns colegas até faziam aposta para quem acertasse a cor da roupa íntima com os inquietos movimentos das pernas, embaixo da mesa de trabalho. Aposta que valia dinheiro entre os apostadores!

Além do expediente, o amigo do Dr. Monteiro o informava o que ela fazia fora do ambiente de trabalho. (Era uma informação paga) O “amigo” o aconselhou a se separar; pedir o divórcio. E para convencê-lo definitivamente relatou o que aconteceu recentemente. Houve uma chuva de beijos da esposa dele com um professor com fisionomia de um adolescente, numa noite recente no estacionamento. Ainda detalhou: as mãos dos dois pombinhos eram insaciáveis!…

Os meses seguiam no tempo…

O executivo continuou a sua rotina diária. Trabalho, casa, igreja e supermercado. Geralmente não saía deste círculo. E sempre andava sozinho.

O executivo não buscava a sua mulher no trabalho devido os horários de término de expediente não coincidirem entre os dois. Ela trabalhava numa escola de ensino médio, e tinha uma função importante na diretoria da escola. Invariavelmente ficava até mais tarde em reuniões com os professores, mesmo quando não havia muita necessidade deste expediente extra.

Num final de um dia bem frio de inverno, Dr. Monteiro arquitetou uma “surpresa” e decidiu sair cedo do trabalho para fazer uma “surpresa” para a sua esposa. Nunca havia feito isto antes, mas decidiu fazer para agradar sua mulher, numa atitude gentil. Procurou algo que a faria feliz e que, em troca, lhe desse sexo naquela noite – disse pelo Whats App. Propositalmente ele deixou o áudio gravado em seu celular: “amor, hoje vou te buscar no trabalho! Estou com saudades. Vamos ter uma grande noite de amor!”

Passou na floricultura e comprou uma rosa vermelha.
Entrou no carro, ligou o som bem alto, e foi em direção a escola buscar a esposa com uma rosa vermelha numa das mãos para que todos o vissem chegar com o singelo “presente”, como se fosse a tocha das Olimpíadas.

Era um dia perfeito! E tudo parecia ter um desfecho como os de contos de fada. A estratégia era perfeita: prometia beijo, bom sexo e café na cama ao amanhecer. Perfeitíssimo!

Procurando estacionar o mais próximo da escola, ouviu choros e correria de desespero de outros. Abriu rapidamente a porta do carro, a rosa vermelha continuou ali, inerte no banco do passageiro. Foi esquecida… Dr. Monteiro saiu rápido de sua camionete. A esposa estava lá, chorando desesperadamente no estacionamento da escola.

O desfecho daquele final de tarde não foi bem assim tão romântico. A estratégia da rosa foi substituída por uma tragédia. A surpresa da sua presença, a rosa e as intenções para aquela noite, tudo ficou sem sentido.

Uma pequena multidão de curiosos atrapalhava a chegada da polícia para concluir, afinal, o que houve, de fato. Ou quais as motivações do assassinato.

Chegar perto do corpo estendido no estacionamento da escola, já faziam suas pernas pesarem uma tonelada. Nisto, olhou para trás e viu um rapaz franzino que mostrava-se frio, olhar ameaçador. Correndo e sem chamar a atenção se esgueirando por entre os carros, o franzino rapaz de óculos escuros desapareceu montando na garupa de uma moto de muitas cilindradas. Como um raio, os dois da moto viraram a esquina e desapareceram.

O Dr. Monteiro sabia quem era o motoqueiro, mas não teve coragem de impedi-lo. O rapaz que fez os disparos aparentava seus 15 ou 16 anos de idade.

Logo depois, a polícia fez o cerco para impedir curiosos chegarem perto do corpo. Dr. Monteiro chegou ainda mais perto do corpo. Seu coração disparou ao ver detalhes familiares do corpo. Recusava a pensar no pior. Quase soltando um grito de desespero ele soube que, o cadáver que ali estava estendido no chão era de seu filho. Ele tinha trânsito livre nos arredores da escola por ser filho da diretora.

O depoimento de um transeunte para os policiais foi assim: uma pessoa chegou repentinamente, ficou encostado no muro da escola, observando, e antes dos alunos saírem, ele disparou o revolver a uma média distância para a diretora, mas seu filho saía juntos, se esquivavam da mira do revolver e com incrível velocidade se jogaram no chão. Mesmo assim, houve outros tiros. Uma bala acertou o peito do filho do executivo. A outra acertou o braço esquerdo da sua mãe. Duas… Três…. Não foram tiros certeiros na mãe dele, não era ali um profissional. Sem se importar com o sangue de seu braço, ela gritou por socorro, mas viu os olhos do seu filho que, aos poucos morria em seus braços.

Aparentemente era um assalto. Mas nada levaram deles. Sem nenhuma explicação convincente para tudo aquilo, restou apenas o choro do desespero ao ver seu filho se esvaindo em sangue.
Da forma rápida o assassino chegou, mais rápido ainda ele saiu, como um raio, na garupa de uma moto. Ninguém tentou impedir a sua fuga com receio de levar tiros também. O assassino fugia e apontava para todos que ali se aglomeravam em gesto ameaçador.
Ao cercar o local do crime, os alunos saíram pelo portão dos fundos. Quando os peritos vasculharam o ambiente, encontraram num dos bolsos do cadáver dois pequenos pacotes. A polícia logo identificou o que continham nos pacotes – cocaína e crack
Autor do texto: JUDSON SANTOS

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