O dia da quase morte do sentimento

 

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O Sentimento decide caminhar em busca do seu maior prazer.

Caminha sozinho, passos sem pressa, contorna rochas, sobe e desce montanhas. Caminha e caminha durante horas à margem de um sinuoso rio. O rio inquieta-se com o solitário caminhante, e pergunta para quem caminha por tanto tempo ao seu lado sem esboçar nenhum sentimento. Pergunta onde ele queria chegar com aquele olhar sem fronteiras, mostrando tristeza. O Sentimento responde que seu caminhar tinha um destino, seu olhar também não era de tristeza. Apenas procurava o prazer em conhecer a Flor do Campo, e encontrar quem fazia parte dos sonhos de todas as noites. Mas os obstáculos são tantos que não tinha a certeza de chegar em seu destino.

Ao ouvir o seu desejo que veio acompanhado de um profundo suspiro de desesperança, o rio continua a dizer:

– Você está vendo o meu percurso?

– Sim, estou… – responde o Sentimento.

– Então… Eu mesmo faço o meu caminho. Isto se chama leito. Nele eu supero todos os obstáculos até chegar ao destino, que é o imenso oceano. Eu sempre chego ao destino por que aprendi a contornar os meus obstáculos.

O Sentimento ouve no burburinho do rio a sua sabedoria. O som suave das águas são suficientes para fazê-lo refletir com profundidade os ensinamentos em como superar dificuldades. Após ouvir isto, ele caminha com mais motivação, decidido a superar também seus próprios obstáculos e encontrar o seu prazer de viver.

Os dias se passaram…

Ao descer uma grande montanha, o Sentimento chega numa planície. Avista ao longe um pequeno jardim. Olha ao derredor, sente o clima, sente o ambiente, sente o aroma das flores e pensa. Hum… É neste jardim que mora quem eu procuro. Grita:

– Olá! Tem alguém aqui? Olá!…

Nisto uma flor delicada, balançando vagarosamente suas pétalas ao vento, lança um olhar curioso para ver o inesperado visitante que novamente grita.

– Olá!!

Sem muito se importar com o visitante, a Flor do Campo mostra o balançar das pétalas bem diferente das demais flores. De tão linda, se destaca.

– Qual é o seu nome? – insiste o Sentimento. – Você é a…? A Flor do Campo?

– Sim? Sou a Flor do Campo… E você, quem é?

–  Como você é linda! Do mesmo jeito dos meus sonhos! Bem assim, como nos meus sonhos! Linda! Maravilhosa!

– Obrigada, moço! Responde com jeito de quem ouviu o óbvio.

– Eu… Eu… Sou… Você pode me chamar de Sentimento.

– Sentimento? Muito prazer, Sentimento! Lindo nome.

– Flor…?

– Sim? Flor do Campo. Este é o meu nome completo.

– Ah!… Sim!… É você mesma! Olha… Eu vim de muito longe só para conhecê-la. Quero ter o prazer de conhecer as suas virtudes. A sua fama já está além das fronteiras de todos os reinos!

– Famosa? Eu?

– Você é a única flor de todos os reinos que canta divinamente para todas as crianças das aldeias todas as manhãs. Você é a única flor que também exala o cheiro de uma alma infantil! Suas pétalas são as mais lindas de todas as flores. O seu balançar tem suavidade, doçura, encanto!

– Quem bom!… Isto é muito bom!! Obrigada novamente, Mas… Veio de tão longe! O que você quer de mim? Posso saber?

O coração do Sentimento agora bate mais forte. E diz o que vem primeiro à cabeça.

– Gostaria de saber se… Você tem inigualáveis virtudes… Me dá o prazer de… Se apaixonar por mim?

– Eu me apaixonar? Apenas neste sentimento?

– Acredite! Vai ser bom…

– Depois você vai embora?

– Talvez sim, talvez não…

– Então, é o prazer de sentir que você quer?

– Você não vai se arrepender.

Ao ouvir isto a Flor do Campo se silencia. Por alguns dias não exala seu perfume, não mostra o seu balançar. Pelo jeito a indiferença foi a sua única resposta. Nesta indiferença, o Sentimento se silencia também a espera da voz da Flor do Campo dizer que daria este prazer se apaixonando por ele.

Ao chegar a noite do quinto dia, a Flor do Campo se inquieta com a longa espera do Sentimento ao seu lado, e pergunta indignada:

– Oiêêê!… Você ainda está aí?? Não acreditooo!!!

O Sentimento evita qualquer resposta.

– Sentimento? No meio de tantas flores, logo eu?

– Não são todas as flores. Não é qualquer flor. É você que o meu coração sente o melhor dos prazeres.

– Ah!… Que lindo!… Tenho uma proposta melhor. Você quer ser meu amigo?

Como quem joga no vazio o pensamento e o olhar, o Sentimento resiste em responder.

A Flor do Campo continua.

– Amigo… Não posso te oferecer nada. E mesmo se eu pudesse, há uma forte cerca neste jardim que me impede de sair. Percebeu? Sou prisioneira dentro deste espaço tão lindo…

Antes de terminar a frase, o Sentimento a interrompe:

– A cerca? Sim, a cerca!… É ela quem impede você perceber a dimensão da minha existência?

– A dimensão do Sentimento? Verdade! Não consigo ver esta dimensão toda. Estou aqui prisioneira. Ao menos aqui tenho segurança, conforto, sol, chuva, ventos…

– Sol?… Chuva?… Ventos?… Sim! Claro! Este é o seu pequeno mundo. Tudo isto tem seu valor. Não questiono o seu conforto. E respeito seu espaço.

Vendo que não teria a paixão da Flor do Campo, nem ela o acompanharia na continuação da sua caminhada, a própria Flor do Campo decide a conclusão do diálogo.

– Então, o melhor é o adeus. Tcháu, Sentimento!

– Espere!… Só mais um pouco… Eu preciso de…

– Ah!… Mais algum interesse, amigo? Huummmm!… Prazer? Lá vem!…

– Flor do Campo, por favor, apenas cante! Cante para mim. Quero manter na memória a sua voz para que o meu sol tenha mais brilho, para que a lua ilumine em mim o canto dos seus mistérios. Cante para mim. A sua voz conhece o que há dentro de mim, mesmo no silêncio da minha voz.

– Mas… Mas…

– Não se importe com a cerca. Cante! Quero guardar na memória a sua voz e, assim, prossigo o meu caminhar um pouco mais feliz.

Ao ouvir a suave voz da Flor do Campo, o Sentimento se deixa conduzir pelos seus pensamentos:

“A suavidade abre caminhos para a paz… A superação tem seus limites que também podem ser superados pela renovação da esperança de ser feliz. A verdade é como um oásis em pleno deserto que mata a própria sede do desencanto. A melodia movimenta as asas dos pássaros e da frágil borboleta! O som do mar, no vai e vem, acaricia a praia que sempre a espera do amanhecer ao anoitecer. Isto! Cante!… Cante no ritmo do seu coração! A razão desequilibra a própria razão de quem se convence que é só dor a dor da paixão. A solidão é o desamparo pelo canto da desesperança. Isto! Continue a cantar!… A dimensão da vida está entre as virtudes e nisto não há limitação que impeça a voz do amor e o desejo de amar. Afinal… Quem colocará intransponíveis cercas para o amor? Quem ousará impedir que haja liberdade do desejo de amar? Somente os vazios cercam. Vazios são os limitados no seus próprios vazio. O ser e a virtude tem no infinito o seu horizonte.”

Vagarosamente o Sentimento se afasta da Flor do Campo, permitindo que o som da sua voz vá diminuindo aos poucos, na distância. A distância aumenta ainda mais, lentamente.

Percebendo o seu distanciamento, a Flor do Campo chama:

– Sentimento? Cadê você?

A resposta dele é o seu olhar que já está longe.

– Você… Você está indo embora?

– Não! De certa forma, não! Não tem como me distanciar desta doce voz. Fico em você, mas na minha distância. A sua canção é o meu alimento.  Porém, faça da sua canção o seu melhor sentimento. Manter-me-ei vivo em você enquanto você cantar. E que os ventos sempre tragam você para dentro de mim.

A Flor do Campo cessa o seu aroma… É o jeito de chorar pela ausência do Sentimento.

Os dias se passam…

Já bem longe do jardim, o Sentimento inerte, deitado na relva úmida, se mantém quase sem vida. Não mostra nenhum movimento. Nenhum olhar. Nada o faz curioso e nem esperançoso de algo ao seu redor. O seu respirar já dá sinais de quase morte. E os dias se passam…

Chega o inverno. Forte,  velozes ventos levam e trazem as baixas temperaturas da nova estação.

Nisto se aproxima um casal de velhinhos, com gestos hábeis, passos lentos, mas firmes. Se aproxima do moribundo, e tentam reanimar a todo custo o seu coração. Trocam olhares quase sem esperança. Decidem continuar na reanimação. Fazem massagem, uma, duas, três tentativas. Mas parece que o coração do Sentimento não quer voltar à vida! O idoso casal olha um para ao outro e decidem por mais tentativas de reanimação. Depois de muito esforço, o Sentimento faz um pequeno movimento de vida. Balbuciar alguma coisa, dá um suspiro. “Parece que conseguimos reanimá-lo!” – diz o casal entre si. O Sentimento abre os olhos lentamente e vê quem acabara de salvar a sua vida.

– Onde estou? Quem…? Quem são vocês?

– Eu sou a Razão e este é o meu marido; pode chamá-lo de Bom Senso.

– Ah!… Obrigado pelo que fizeram por mim.

– Você já estava quase morto, menino! Por pouco!

O Bom Senso recomenda carinhosamente.

– Agora que você está melhor, siga seu caminho, mas com cuidado!

– Ainda estou muito fraco…

– Então, fique mais um pouco – disse o Bom Senso – Reflita sobre tudo o que aconteceu na sua caminhada, e não deixe novamente se abater.

– Sim! Procure novos horizontes para a sua vida. – intervém a Razão.

– Mas… O que aconteceu foi muito forte na sua vida. – pondera o Bom Senso.

– Vocês nem imaginam! Eu ia morrendo por causa de um amor não correspondido. Caminhava e já não via mais a luz, não enxergava esperança, tudo dentro de mim doía!

– Não se esforce tanto pra falar agora. Acalme e recupere o que perdeu que são as suas forças e a sua esperança– pediu o Bom Senso – Sabemos de tudo o que aconteceu.

– Sabem?… Como??

– Sim, presenciamos tudo. Acompanhamos tudo o que aconteceu. Você não percebeu por que a sua paixão anulou a Razão e o Bom Senso. Mas sempre estivemos perto de você a sua disposição.

Acariciando o coração do Sentimento, a simpática velhinha orientou:

– Agora talvez seja melhor você decidir o seu destino. Não desista de respirar seus sonhos e desejos. Acredite neles! Continue acreditando na vida. Sempre haverá um novo sol. Mas, não perca de vista a Razão! Para tudo há uma explicação certa para todas as coisas.

– É… A senhora tem razão. Vou partir para o um novo destino, com mais cautela. Chega de sofrer.

– Lembre-se que você procurou esta situação com as próprias mãos. Ou… Com seus próprios pés e coração.

– Novamente a senhora tem razão.

– Ela sempre tem razão – falou o Bom Senso com um leve sorriso nos lábios.

– Você acha certo o que você fez? Vir de tão longe para procurar alguém que está cercada e compromissada com outro espaço? Pense bem nisto!

– Minha nobre senhora, o sentimento não julga; não consegue alcançar conclusões nesta percepção. O que é certo e o que é errado? Nem sempre o Sentimento tem a resposta.

– É por isto que estamos aqui; para te ajudar – interferiu a Razão.

O Bom Senso completa o que disse a Razão:

– …E quando há alguma reflexão ponderada dentro de você, isto se manifesta fundamentado na busca e apenas no desejo de sentir um simples prazer.

A Razão reforça:

– Me ouça: você deve aperfeiçoar um pouco mais os seus critérios do sentir. Sentir prazer é um direito, sim, de todo sentimento. Porém, pondere! Analise antes de tomar qualquer decisão na sua caminhada.

– Sim… A senhora novamente tem razão.

O bondoso velhinho Bom senso continuou:

– Vou te dar um chá que vai ajudar num a restaurar a sua bela existência. – e Se vira pra Razão – Ah!… Querida! Por favor, me passe aquele líquido “poderoso”. O nosso amigo Sentimento está precisando dele. Abra agora bem a boca. Beba!…

– Ei! O que é isto?

– Juízo – diz a Razão – uma boa dose de juízo sempre faz bem!

– Ah!… Juízo? Argh! Não é tão gostoso.

– Mas, necessário – disse o Bom Senso.

Ao beber outra dose, o Sentimento mostra-se mais fortalecido.

A Razão aconselha:

– Vou te dar este cantil. Leve este líquido precioso que o meu marido deu a você. E beba-o sempre que for necessário. E nunca perca todo o juízo, viu?

– Não vou perder este líquido, mas… A estrada é longa. O caminho é escuro. Tem muitas matas, feras perigosas. O que eu faço?

– Hummm… Você corre o risco de perder este líquido ou de morrer no caminho. Acho que temos uma solução para o Sentimento, não é, querida esposa?

– Sim, temos!

– Vou chamar a nossa maior aliada para ajudar o Sentimento a fugir da morte.

– Sim, meu querido marido! Ela, sim, é a solução para o Sentimento não morrer.

Nisto o Bom Senso olha pra cima, dá um aceno para o alto como quem procura alguém. Olha para as nuvens, parece que não tem nada no céu. De repente, entre as nuvens, surge em poucos instantes uma robusta águia com o olhar penetrante. Ao pousar ao lado da Razão e do Bom Senso, pergunta:

– Vocês me chamaram, amigos?

– Sim! Chamamos! Queremos apresentar um novo amigo. Sentimento…

A imponente águia cumprimenta o Sentimento, expondo sem modéstia suas penas exuberantes.

– Olá! Como vai, Sentimento?

– Muito prazer, dona águia… Estou melhor agora, graças ao Bom Senso e a Razão. Qual o seu nome?

– Espiritualidade.

– Ah! Sim… Lindo nome! Muito prazer, Espiritualidade!

A águia caminha mais pertinho do Sentimento e diz:

– É… Parece que prazer é o único assunto que você entende bem, não é?

O Sentimento olha firme em seus olhos:

– Espero que você não tenha vindo pra me dar um sermão…

– Não! Apenas quero te levar a conhecer outro nível de prazer.

A Razão interfere:

– Muito bem, meninos! Agora a Espiritualidade vai levar o Sentimento ao melhor destino. Nas estradas lá embaixo, há muitos inimigos ocultos, feras noturnas, todos os perigos. A Espiritualidade vai ajudar o Sentimento a não morrer nesta caminhada em caminhos baixos.

– Ainda bem. Achei que ela veio só pra me dar uma lição de moral – ironizou o Sentimento.

A Espiritualidade diz com voz firme:

– Sentimento, além de livrá-lo dos seus inimigos, não vou afastá-lo do prazer. Ao contrário! Quero fazer você sentir um novo e outro prazer.

– É? Como?

O Bom Senso interfere o diálogo:

– Sentimento, é melhor você seguir logo a sua viagem. Já está ficando tarde.

– Sim – disse a Espiritualidade – suba!

– Subir? – pergunta o Sentimento.

– Sim, suba em meu dorso, próximo à minha cabeça. Apoie-se em mim, garoto!

– Sim!!!!!! Vamos voar??? Uaauuuu!!!… Que maravilha!!!

– Sim, agora vamos voar!

– Este é o prazer que você me falou?

– Exatamente! O prazer do alto!

– Prazer do alto??… Ah!… Acho que vai ser interessante…

O Bom Senso olhando a cena e com um sorriso suave diz ao Sentimento:

– Você aprendeu a ter prazer nos caminhos aqui embaixo. Agora você vai sentir o prazer nos caminhos altos!

– Mas… E vocês? – pergunta o Sentimento para o casal.

A águia diz:

– Eles também vão conosco! Subam em mim, amigos!! Vamos todos juntos!

A Espiritualidade já com as asas abertas, prontas para o voo, cede espaço para uma da asas para a Razão que sobe na extremidade e o Bom Senso se ajeita na outra extremidade.

– Uúúúú!!!!!!!!!!!!! – Grita o Sentimento – É claro que vocês não podiam faltar nesta viagem!!

– O que você está sentindo agora? – Pergunta a Razão.

– Com todos vocês comigo sinto que a minha viagem será a melhor de todas as viagens!

– Sentimento – diz em tom firme a imponente Espiritualidade – Esta viagem também tem um nome – E já levanta o voo com os três amigos sorrindo e bem acomodados.

– Esta viagem tem nome? Qual é o nome? – pergunta o Sentimento sem esconder a sua felicidade de um garoto.

A imponente águia responde com satisfação:

– O nome desta viagem é… Vidaaaaaa!!

 

Autor: JUDSON SANTOS

 

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6 Comentários

  1. parabéns querido Judson, por esta maravilhosa cronica porque como diz o sábio salomão a sabedoria do homem faz brilhar o seu rosto, que DEUS continue te usando com esta dedicação, pois a doutrina do sábio é uma fonte de vida!

  2. Cleidy

    Nossa muito lindo esse texto! Realmente temos que ter sempre o bom senso e a razão
    sem esquecer a espiritualidade!!! Parabéns Judson!!!

  3. Judson suas palavras tem “VIDA”!

  4. Cristina Dantas

    Parábola das fases da vida. Maravilhosa. Amei! Não sabia que você escrevia… tem mais?

  5. Francesca Oliveira

    …sem palavras…!!

  6. Vilma Marciano de Paula Rudzit

    Muito linda esta crônica como diz os outros comentaristas.
    Me lembrei de como diz a Palavra em Gálatas, sobre as obras da carne (sentimentos baixos, como caminhos baixos) e os frutos do Espírito, comparado como os caminhos no alto, lá no alto navegando nas asas da águia, ficamos longe do alcance do olhar do inimigo.
    Mas, parabéns pelo dom o talento que Deus te deu de ser um grande poeta, e um mestre!
    Abraços e Deus continue derramando unção p/cada letra que escrever.
    Vilma Rudzit

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