Grito ao amigo Chico

inferno

 

Chicoooo! O que é isto? O que estou fazendo aqui? Não sei o que está acontecendo. Como vim parar aqui? É uma cratera? Estou num lugar muito estranho. Isto deve ser o inferno! Só pode ser… O calor é insuuuportável! Tem fogo por todos os lados! Não tem para onde me mover. Muita gente se contorcendo. Caramba! As mãos na cabeça… Muitos com as mãos na cabeça, se contorcendo, nos rostos só desespero.

Um cara agora caiu de joelhos em minha frente. Por quê? Ele grita alto, muito alto! Acho que ninguém aí em cima está ouvindo. Ele grita palavras de arrependimento, parece que pede perdão. Perdão pra quem? Pra mim que não é. Deve ter aprontado alguma coisa pesada pra agir assim. Mas… E eu? O que eu fiz de errado?

A última coisa que me lembro foi uma briga no bar do Zelão. Eu estava tomando uma cervejinha, de repente, aparece um cara xingando todos os palavrões. Ele me ameaçava, dizia que eu ia morrer. Num movimento rápido peguei a faca do bar que estava no balcão, consegui esfaqueá-lo. Ele não morreu. Ficou gemendo no chão, mas sei que não morreu. Foram quatros cortes profundos no rosto e outro no braço. Não deu pra matar, mas muito sangue correu no chão. No dia seguinte desta briga fui saber que ele era o marido da Martinha. Bem que você me avisou, amigo! Você me avisou muitas vezes que a Martinha era casada. Ela é uma policial linda, morena de cabelos curtos, quadris fartos… Eu estava perdidamente apaixonado. A minha paixão cegou a razão.

Chico, o cara ajoelhado aqui na minha frente está berrando sem parar agora. Seu rosto está deformado. Ele grita chorando… Um grito estranho; grito mudo. Agora deu vontade de chorar junto com ele também. Eu queria que alguém me ouvisse e me explicasse que lugar é este. E o que estou fazendo aqui??

Aaah!… Estou me lembrando agora. No outro fim de semana, após aquela briga e naquele mesmo bar, eu estava bastante bêbado. Era madrugada e eu quase dormindo de bruços na mesa fria de metal sem toalha. A Martinha me puxava pelos braços para ir embora. Ela estava a serviço, fazendo ronda na rua. Mas eu queria a companhia das garrafas vazias. De repente ouvi alguns passos lentos atrás de mim. Um começo de discussão. Antes que eu me virasse, ouvi um estampido seco. Senti uma dor como se fosse ponta de ferro quente entrando na minha nuca. Depois daquele momento não me lembro de mais nada. Ah!… Agora sei! Foi nessa mesma hora que tudo acabou para mim. Aquela foi a minha hora, a minha morte! Que desgraça! Que fim de vida mais besta! E agora? Estou no inferno? No infeeerno?? Você acha que eu mereço isto?

Você não imagina o tanto de pessoas que ainda gritam, berram e se contorcem aqui. Os gritos são mais apavorantes que ensurdecedores. É uma visão infernal! Acho que vou mudar de lugar… Mas, para onde? Tenho que encontrar algum lugar que não seja tão quente neste inferno. Se é que existe algum lugar assim aqui. Ou alguma coisa que refresque ao menos a minha língua. Talvez o toque de mão salvadora, tal como na história que ouvia do pastor na única vez que estive na igreja dos crentes. Foi no ano passado, hoje estou aqui, no inferno…

Bem na minha frente tem outro buraco gigante. Um abismo… Vejo vultos por todos os lados. Eles têm formas estranhas, esgueiram-se lentamente. Desaparecem também com agilidade. Não deixam ser alcançados, mas ficam próximos de quem eles querem. Melhor eu me afastar. Vou procurar um lugar seguro no inferno. Seguro? Aqui?… Que ironia! Mas tenho que me afastar. Além de estar no inferno, cair naquele abismo, isto já é demais para o meu destino. Não acho que fiz tanto para merecer tanto castigo.

Poxa!… Agora começo a entender que errei em não acreditar na Bíblia daqueles crentes idiotas. Tudo aqui, tudo o que eu vejo aqui eles já haviam me falado. Até no papelzinho que recebi de uma senhora tinha a história de dois caras, um deles veio pra cá. Um era rico e outro se chamava Lázaro. Eu ria da história deste papelzinho, dizia que a Bíblia dos crentes era comunista. Pobre no céu e rico no inferno… Ah! Que piada. Mas, não! Não sou rico, no entanto estou aqui neste inferno de vida. Vida???

Aqueles crentes fanáticos com um sorriso bobo na cara viviam falando disso aqui, que o inferno existe e que a única saída era “aceitar” o Jesus deles. Salvação, vida eterna, sorriso bobo na cara… Acho que eles tinham razão, caramba! Nunca dei importância pra isto.

Ah!… Chicooo! Como eu gostaria que você me ouvisse! Infelizmente não tem mais jeito. Acabou. A comunicação com você terminou. Acabou pra mim, meu amigo! Acabou! Espero que você não venha pra cá também. Ouviu? Ei!!! Você ouviu?? Nããão veeenha pra este lugaaar, Chicoooo!!! Vai lá! Vai lá na igreja dos crentes com cara de bobos. Vai para o Jesus deles. Cuida da sua alma, cara! E procura aquela velhinha e diga pra ela… Aaah!… Deixa pra lá.

 

Autor do texto: Judson Santos

*Este conto ganhou a menção DESTAQUE no encontro de Novos Escritores realizado na cidade de São Paulo/SP, em 1998.

 

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1 Comentário

  1. tania

    muito lindo parabéns

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