Encontro quase fatal

Ponte de madeira na neblina (escuro...)

 

 

 

O relógio da igreja matriz marca quase seis da tarde.

O entardecer, como sempre, é tranqüilo na pequena cidade do interior. Na saída da cidade, mesmo longe é fácil avistar a ponte com suas curvas ascendente e descendente bem acentuadas. Os pedestres nela caminham; sem pressa. Bem no meio da ponte, encostada no parapeito, está a Vida com um longo vestido branco claríssimo. Seu olhar é sereno ao ver o pôr do sol, como quem espera pelo novo dia. O olhar se mantém fixo no horizonte. O sorriso é suave e não percebe quem se aproxima sorrateiramente atrás de si. Vira-se num gesto rápido, não se assusta com a presença fétida da repentina intrusa. Vestido esvoaçante, esfarrapado, voz esganiçada e estridente, exalando um hálito insuportável, a Morte pergunta:

– Que cara é esta? Assustada? Está com medo? Cheguei!…

– Não seja prepotente! – responde a Vida desconsiderando a arrogante intromissão.

A Morte insiste:

– Acho que você não entendeu… EU! Ouça bem: EU cheguei! EU!… – Rodeando por trás, sem olhar frente a frente em seus olhos, acaricia com uma das unhas e de modo provocante o pescoço da Vida:

– Eu não significo nada para você?

– Já disse que você está chegando numa hora errada.

O olhar agudo, frio, penetrante, a Morte avança agilmente a sua frente. Com os dedos em riste em seu rosto, esbraveja de forma desafiadora:

– Quem é você pra me dizer a hora que eu devo chegar?… Quem é você para decidir quando e onde devo chegar? Ei! Você já se esqueceu?… Você já se esqueceu? Eu decido o seu fim. Eu decido a sua hora. E a sua hora chegou. Vamos! Vaaaaamos! – puxando a Vida pela roupa que desvencilha.

– Me larga… Você fala demais!

– E você é muito teimosa para o meu gosto. Vamos descer!

A Vida se esquiva das mãos magras e frias. Quase cravando as unhas pontiagudas em seu braço, a Morte insiste:

– Eu não subi para gastar meu tempo com você, Vida.

– Morte, o seu péssimo temperamento mostra grande inveja. Você não pode ver ninguém vivendo em paz. Você morre de inveja do nascimento, do crescimento, do movimento da vida.

– Que papinho besta! Ah! Ah! Ah! (a gargalhada estridente soa longe) Prefiro as violências das cidades; tem mais emoção. Violências são emocionantes! Até os humanos gastam horas apreciando o melhor cenário dos filmes. Os melhores filmes têm assassinatos, estupros, assaltos. Isto, sim, é que é chamar a atenção. Ninguém pára na frente da televisão para olhar o por do sol e de moro sereno como você faz, idiota!

– As violências dos filmes são fantasias do entretenimento e não indicam necessariamente, a preferência de fatos desejados na vida de quem as assiste.

– E as violências dos telejornais?

– Esta curiosidade nos noticiários faz a consciência. A consciência faz a prevenção. Se ninguém disser que tem assaltos nas ruas, todos vão para as ruas desapercebidamente, sem tomar as devidas precauções.

– Ô vidinha besta! Agora vai filosofar? É? Tá… Mas de qualquer jeito, de um modo trágico, na velhice ou num leito de hospital eu sou o destino de todos os humanos. Todos!

– Mas isso é conseqüência dos erros lá do Jardim do Éden…

– Ihhhh! Lá vem papo de Bíblia…

Num tom bem professoral, a Vida continua:

– Isto mesmo! Acertou. Bíblia! É exatamente isto. Escute! Lá na Bíblia diz que Adão e Eva, os primeiros humanos, permitiram a sua intromissão neste planeta. E lá também está escrito que todos morrem por causa disto.

– Tudo bem… Você colocou a Bíblia nesta conversa, não é? Tá… – a Morte baixa o tom de voz, continua não menos provocadora – lá também diz nesta tal de… argh… Bíblia (cuspindo várias vezes) está escrito que o “salário” sou eu. Está vendo como tenho valor? Sou considerado “salário” até na sua Bíblia!

– Você é um salário, sim, mas do pecado. Você é o pagamento triste e indesejável de quem se desvia do destino da Vida.

– Ninguém pode reclamar; e nem fazer greve por minha causa. Nunca atrasei, ninguém fica sem mim mesmo desempregado. Mas vamos mudar o assunto que este papo tá muito mole para o meu gosto. Daqui a pouco você vai falar em… Jesus (a Morte fala este nome baixinho com o indicador na boca como quem proíbe falar.)

– Ahhh!… Foi bom você falar nele!

– Vai insistir neste nome? Vai? É?? – grita irritadíssima – você gosta de ser curta mesmo, hein Vidinha! Vamos para o meu silêncio, lá você vai fechar esta boca que, de tão limpa chega ser repugnante. Já disse que não quero perder tempo com você, Vida. Vamos descer!

Neste momento a Morte avança ameaçadoramente sobre a Vida. Uma força estranha e sorrateira se levanta, uma sombra escura cobre o ambiente. Neste momento um estranho frio invade o lugar. Desaparece o frescor das matas. Acinzenta-se o horizonte. As flores perdem suas cores. E neste mesmo momento também outra força vem em direção contrária, se interpõe entre a sombra e a natureza, evitando a invasão da fria escuridão. Logo um vento suave devolve o perfume flores. As matas mostram novamente o balançar das copas das árvores. Um pincel invisível como de um destro pintor refaz o colorido das flores e do céu que são devolvidos gradualmente. Sombra e vento suave, luz e escuridão medem suas forças por alguns momentos… Numa luta sem trégua a Vida vence; ainda tem forças para se desvencilhar das garras da Morte.

– Solte o meu pé! – determina a Vida para a Morte.

– Soltar?… Por que eu devo soltar você?

– Vou dar um só motivo para você me soltar agora mesmo. O nome dele é…

– Já sei! (cospe, copse) Já sei! Novamente este nome? Pode parar! (argh!) Detesto este nome! Que pessoa insuportável! – cospe várias vezes no chão.

– Este mesmo… JESUS!

– Esse cara não me interessa nem um pouco. Fique sabendo que eu quis levar este tal de…

– Jesus!

– … sim, este cara mesmo. Eu quis levá-lo pela fome no deserto. Fiz que a sede dele se acentuasse com meu calor infernal. Mandei meu aliado seduzi-lo. Mas foi tudo em vão. Meu aliado tentou, se esforçou, mas não conseguiu nada. A minha paciência se esgotou depois de quarenta dias de espera, sem ele ao menos ficar com insolação.

– No deserto? Ah! Lá não foi a sua única derrota, não!

– Derrota? Que derrota, vidinha besta? Você já se esqueceu? Pendurei o seu Jesus quase pelado num madeiro. É claro que contei com alguns ajudantes: Judas, Pilatos e até o povo judeu! Todos ajudaram a levá-lo para a cruz. Mas houve um momento… Aquele lindo soldado romano, este momento foi especial – por alguns momentos a Morte se deixa levar pelas lembranças – Êêê soldadinho gato e valente! Ele pendurou o seu Jesus naquela cruz maldita, furou o lado do peito do seu Deus com uma lança. Só não entendo por que saiu água e sangue… Mas, não importa. Jesus morreu! Jesus foi assassinado! Eu assassinei o seu Deus! Esta foi a minha vitória, a maior vitória das trevas. Tudo acabou! Eu fui, sou e sempre serei vitoriosa depois da morte deste seu Jesus!

– Vitória?? Dobre a sua lingual mortal! Que vitória você se refere, dona Morte? Você se esqueceu? E o que aconteceu depois de três dias? Esqueceu? Eu vou lembrar você… Escute bem: Jesus ressuscitou! Jesus venceu a morte! Jesus arrancou as chaves da morte da sua mão. Jesus é a vida! Jesus é a vida eterna! Nele os humanos também têm a vida eterna! Você não tem a menor força contra os humanos que foram alcançados pela Vida eterna em Jesus. A simples fé no Jesus ressuscitado garante a segurança  e a vida eterna!

– Cala a boca, Vida!

– Agora é você quem vai ouvir até ao fim. Escute: “Onde está, ó Morte a sua vitória? Onde está, ó Morte o seu aguilhão?” Estas perguntas não queimam os seus ouvidos? E o que me diz?… Você não tem resposta? A vida venceu a morte! E foi justamente na morte de Jesus que a vida eterna é garantida para os que morrem.

Cabisbaixa, a Morte ainda argumenta baixinho:

– Os humanos continuam morrendo…

– Até nisto você contribui para o bem deles, por incrível que pareça! Você leva, sim, os corpos frágeis, corrompidos ou doentes. Você destrói um corpo contaminado. Você leva o que está podre. Mas o humano que é salvo pela fé em Jesus, ao morrer sua verdadeira vida é transportada para a presença do Eterno Deus. E isto definitivamente! Nem você e nenhum dos seus aliados, ninguém das trevas, nenhum outro inimigo de Deus ou do homem não tem a menor chance de matar para sempre os salvos que estão garantidos e assegurados na vida. Escute, Morte, escute! Em Jesus a vida é eternaaaa! E agora, o que me diz?…

– (silêncio mortal)

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Autor do texto: JUDSON SANTOS

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18 Comentários

  1. Denise

    Jesus é vida!!!!!!!! um dialogo muito claro e profundo entre a morte e a vida… Deus continue concedendo sabedoria para escrever . È um dom abençoado!!!

  2. Marlene

    Parabésn Judson…Deus continue te abençoando com textos reveladores.. Lembrei do livro”Este mundo tenebroso”(ficção)Abraços!

  3. Cleidy

    Muito bem elaborado,parabéns!

  4. Maria Eunice

    Parabéns Judson, Deus abençoe o seu ministério…

  5. Lia Lemos Inácio Soares

    Muito lindo, Prof. Judson! Daria uma bela apresentação no domingo de Páscoa, finalizando com o coral cantando o hino: Cristo já ressuscitou, Aleluia! sobre a morte triunfou, Aleluia! Tudo consumado está, Aleluia….
    Parabéns, que dom maravilhoso!

  6. maria antonia

    Parabéns Judson,realmente Deus te escolheu e te capacitou,belo texto. Jesus!! esse nome tem poder.

  7. aldomario santos costa

    SIMPLISMENTE DIVINO!!!

  8. valdenira

    lindo e tremendo que deus continue te usando.

  9. Denise dos Santos

    Maravilhoso texto chorei, tudo perfeito, PARABÉNS!!!
    ao escritor.

  10. Jarede Ferreira Oliveira

    Amei este diálogo vida/morte…
    É verdade, morremos em Cristo Jesus, para a vida eterna…
    Este texto exemplifica bem como os escolhidos de Deus partem
    para uma nova morada onde a morte se cala para sempre!!!
    Devemos estar preparados para enfrentar a morte e repousar
    nos braços do Pai Celestial!
    Parabéns, Judson Santos. Deus ilumine sua vida e sua mente,
    para nos agraciar com textos lindos assim!

  11. tania

    UMA benção….Deus ´contigo

  12. joana gomes de oliveira

    Excelente texto reflexivo! Parabéns, Professor Judson! Seus texto estão cada vez melhor. Um abraço

  13. waldete Pereira da Silva

    Parabéns! texto maravilhoso, Deus seja louvado.

  14. Olga Arruda Zahn

    Excelente amigo Judson!! leitura reflexiva e de fácil entendimento para Cristãos e não Cristãos… alcance completo. Abraços!!

  15. libna de paula

    Jesus é vida, e com Ele jamais seremos vencidos! parabéns Judson, que a cada dia voce esteja mais inspirado para nos oferecer textos maravilhosos e reflexivos!

  16. Levi Mendes

    Grande trabalho meu querido. Fico feliz de ter convivido com seus pais e seu irmão, Jason Tercio que morou comigo na republica em Campinas. Um forte abraço!

  17. Cissa Alvarenga

    Um banquete,meu amigo.Gosto dos teus textos,mas este é especial.Abraço grande pra ti.

  18. Rute

    Muito bom Pr. Judson, que Deus continue sempre abençoando-o!

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