Crônicas

Lençol na janela

Lençol na janela

Tuuuuuut! Tuuuiuuuuut!!!… O longo apito do trem não consegue cortar meus pensamentos. Quando eu era menino… Ah!… (suspiro profundo) A minha casa ficava bem pertinho da estação de trem, em frente aos trilhos. Todo final de ano, no tempo das mangas, eu subia na maior árvore do quintal do seu Joaquim. E ainda levava meus amigos. Quem não gostava destas traquinagens era ele. Com um ramo que não machucava nem uma mosca, corria atrás da gente xingando o maior palavrão que conseguia dizer: carniça! Seus carniça! Fora daqui moleques carnicentos. Eu não resistia a mangueira do quintal dele – convidativa, dava mangas grandes, gostosas demais, delícia! A janela do trem emoldura o passar apressado das montanhas, dos pequenos lagos, dos bucólicos vilarejos, só o tempo parece não passar por aqui. Estou quase chegando!… Estou chegando? Puxa! A cidade não está longe. Mas… Qual vai ser a reação da minha mãe? Eu saí de casa com dezoito anos, hoje sou quase avô. Vou me levantar, cansei deste banco desconfortável. Talvez nem tanto o banco, mas a ansiedade faz o desconforto. Se não fosse esta lata velha eu já teria chegado. Só tem barulho! “Café com pão, manteiga, não. Café com pão, manteiga não.” Quando eu era menino minha mãe brincava assim comigo, imitando o trem. Saí de casa e agora, depois de tantos e tantos anos estou voltando. Nunca mais falei com ninguém da minha família. Foi triste, muito triste o dia em que saí de casa. Não gosto nem de pensar. Eu lembro que cheguei bêbado na noite que havia perdido tudo no jogo de sinuca. Perdi tudo naquele maldito jogo! Tive que entregar todo meu salário do mês, o relógio da parede da sala, o rádio e a bicicleta do meu irmão e uma bezerra branca que papai tanto gostava. Ao ouvir o barulho na sala papai levantou da cama, percebendo tudo tentou impedir a entrega. Mas tive que entregar. Afinal, os caras esperavam o pagamento no portão da casa. Quando voltei da entrega, papai ficou muito nervoso, brigou comigo e ameaçou me bater. Depois da longa discussão em plena madrugada, agredi meu pai. A mamãe entrou na briga com uma vassoura. Ela não chegou a me agredir. Segurei a vassoura e a tirei bruscamente das mãos dela. Nisto ela escorregou e caiu esquisito no chão. Nem me importei com o tombo. Dei as costas, fui para o quarto. Ela se levantou e foi socorrer meu pai caído no chão depois que dei um forte soco na cara dele. Eu estava totalmente descontrolado. Meus irmãos acordaram, olhavam tudo ficaram sem entender e sem reação. Não acreditaram no que estava acontecendo. A mamãe chorava, não pelas perdas do dinheiro e nem pelos objetos da casa, mas pelo meu irreconhecível descontrole. Naquela mesma noite, arrumei a mala e fui terminar a noite no banco da estação. Esperei o primeiro trem que ia para a capital. Isto faz muito tempo, muito tempo mesmo! Eu me arrependi e me afastei da família durante todo este tempo, com vergonha de tudo o que aconteceu. A notícia que tive de casa foi de um amigo de infância que encontrei por acaso, no centro de Belo Horizonte. Ele contou que meu pai havia falecido. Chorei muito naquele momento. Chorei por não existir mais a oportunidade...

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Ei!… Você é importante para mim!

Ei!… Você é importante para mim!

  Recentemente uma das expressivas lideranças evangélicas me falou de forma contundente: Pastor Judson, você precisa se sentar ao lado dos príncipes desta terra! Você está muito apagado! Você não é ninguém! Daí, eu pensei: acho que é isto mesmo… Estou dando bobeira. Sou um cara experiente, tenho um pouco de talento. Preciso me valorizar mais. Acho que vou fazer alguma coisa que chame a atenção do povão. Quem sabe um programa na televisão, no rádio…? Ou fazer algum evento que chame a atenção? Acho que vou abrir uma igreja, uma mega igreja! Isto dá status. . Poucos dias se passaram… Só agora me dei conta que eu estava sendo levado pela mais sórdida ganância eclesiástica dos últimos tempos da igreja aqui na terra. A glória de quem pertence a glória, sendo repassada a homens. Não! Não, acho que não é por aí. A necessidade de auto afirmação, mais a insegurança, mais a arrogância do ego é que levam lideranças para a visibilidade fútil, enriquecimento rápido e estrelismo de púlpitos. . O que diz a Palavra? Aquele que quiser ser alguém, que seja um ninguém! Mateus 18.3; Marcos 9.34; Mateus 10.43; Mateus 18.4; I Cor 12.23. . Não é fácil conjugar humildade com grandeza de espírito. E por falar em “grandeza de Espírito”, prefiro mesmo imitar o maior de todos. Não é fácil imitar quem se humilhou… por amor. Não é tarefa simples imitar quem se fez menor… por amor. Decido me esforçar para imitar quem está acima de tudo e de todos. Este sim, pode! Decido imitar quem “está podendo” na terra e no céu. Pelo menos, vou tentar, vou me esforçar. Vou tentar fazer o que ele fez: sentar com leprosos, comer com pecadores, me silenciar com as prostitutas, chorar com as viúvas, lavar os pés dos meus amigos. Quem sabe até lavar os pés de algum inimigo? Quem sabe?… E por que não? Nas horas vagas, dar de beber a quem tem sede, comida a quem tem fome, visitar enfermos, prisioneiros… De vez em quando, estender a mão aos insignificantes. Era isto que o verdadeiramente grande e poderoso fazia! Bem interessante!… . É claro que o maior de todos e de tudo não recebeu nenhum aplauso com isso. Mas ELE é Senhor e Rei! Contrariando os valores daqui, ninguém tem visibilidade imitando o Rei. Nenhum aplauso! Mas, o que importa? O que importa mesmo é Ele ser grandiosamente visível pelo Espírito, apesar das insignificantes vaidades humanas. O que importa é o simples respirar na presença de quem é Absoluta Vida. O que importa é ELE se tornou eternamente grande numa rude cruz; por isto, me mantenho uma pequena criança na sombra da cruz. O que importa é o Filho ser na grandeza do Pai. É nisto e por isto que O glorifico. E isto me basta. O que passa disto é síndrome de Lúcifer. . Autor: JUDSON SANTOS . ATENÇÃO! Todos os direitos autorais reservados. Nenhuma parte das publicações neste site não pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida de qualquer forma e por quaisquer meios sem a autorização prévia do autor....

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Amor – a mais pura verdade

Amor – a mais pura verdade

Acho desinteressante quando alguém afirma com todas as letras “amar de verdade”. Esta afirmação remete à possibilidade do contrário: amar de mentira. Vamos ser sinceros… Existe amar de mentira? Amar de mentira é a maior mentira provavelmente sentida em todos os sentidos. Não existe e nem há coexistência entre amor e mentira. Amor e mentira juntos? Existencialmente impossível! É mentira quem ama de mentira. Quem ama, vive verdade. E se há verdade em algum lugar, há verdade na geografia do amor. Só o amar (verbalizado em todos os tempos) é a única verdade de todos os possíveis e imagináveis sentimentos.   Autor: JUDSON SANTOS   ATENÇÃO! Todos os direitos autorais reservados. Nenhuma parte das publicações neste site não pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida de qualquer forma e por quaisquer meios sem a autorização prévia do...

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Churrasco nos cantos mais sensíveis de mim

Churrasco nos cantos mais sensíveis de mim

Dentro de mim, a minha natureza inteiramente desumana, variavelmente quieta, invariavelmente complexa, pouco decifrável, de uma hora pra outra e sem pedir licença me entrega absolutamente vulnerável às minhas enfraquecidas percepções da paz e do bem estar. Assim e na maior cara de pau, em plena quarta feira, aflora o pior de mim para mim mesmo. E não é a primeira vez que isto acontece! Na semana passada, eu estava frágil a ponto de sentir inúmeros sentimentos acinzentados. Hoje acordei…  Já pela manhã fui ao espelho e pude perceber nitidamente a minha feição delineada no meu não ser. Ei! Precisa mostrar isto na cara? Sou bem desumano para o que eu gosto de mim. Impiedosamente me vejo desumano dentro de mim. A fraqueza assume o controle. Bruscamente ela chama o conflito e o empurra para dentro das minhas emoções. Como se não fosse pouco, o empurra também para a espiritualidade. Chama a limitação, arma a barraca da frustração. Todos se abrigam no espaço estéril do meu sentimento. É o “camping” da miséria que se arma; se esparrama… A fraqueza acha tudo aquilo pouco. Pede reforço: Venham! – depressão, mágoa, decepção, insatisfação… Venham todos! – grita mais alto – Venham para este receptáculo humano! Enquanto a fraqueza grita, o meu desespero geme. Uma a uma, todos os miseráveis obedecem. Sem barulho se instalam dentro de mim. A fraqueza ainda insiste no chamamento. (Para enfraquecer, a fraqueza é forte) Chama, grita, convoca. Todos se espalham exalando um cheiro insuportável de fracassos. Brasas se acendem para o grande churrasco nos cantos mais sensíveis de mim. Quanto mais sensível no meu sentir, maior a churrasqueira. É a festa bizarra, grotesca. Todos da miséria bebem! Bebem feitos dementes. Dançam e adoecem. A minha mente agoniza. Nesta dança insana, os miseráveis tomam posse do meu querer. Já não decido mais nada. Estou fraco demais para isto. A bagunça é geral. E como se não fosse pouco, a incredulidade e a negridão se unem para se tornarem senhoras dos meus pensamentos. Não penso forte. Penso fraco. A incredulidade e a negridão, vaidosas nas suas truculências, canalizam o foco que antes era de mim, para o fim de mim mesmo. Elas me fazem pensar que não há mais força. As indesejáveis senhoras intrusas e fétidas, incredulidade e negridão se lesbianizam numa orgia que estupra a inocência da minha sensibilidade. Sou violentado na mente e na alma. Tento reagir num ser super-alguma-coisa-espacial com poder para emitir raios ultra poderosos, mas que despache o mal bem para o mal. Ou… Por não dizer um palavrão, destes que o mal considera aviltante? Exorcizo a filha do mal e que vá para longe; faça-se extinto! No meio de tantas tentativas, o desconforto ainda existe; persiste. Tenho que fazer alguma coisa para me libertar deste lixo de mim. As ruas podem ser o refúgio para eu sair desta caverna que esconde em mim a minha angústia. Quero um destino qualquer. Quero uma rua qualquer. Olho ao redor. Ah!… Lanchonetes? Shoppings? Carros, prédios residências, cinemas, mais lojas, liquidação, produto novo no mercado estampado em cartazes gigantes nas portas dos que vendem. Ôpa! Um sinal de pare… Verde para mim e vermelho para os veículos. Prossigo. Atravesso ruas. Para onde estou indo? Perco-me no próprio silêncio da minha resposta. Preciso de respostas. Saio de mim para...

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A arte de ser feliz

A arte de ser feliz

    “A fórmula da minha felicidade: um sim, um não, uma linha reta, um objetivo.” (Friedrich Nietzsche). “A felicidade é quando o que você PENSA o que você DIZ e o que você FAZ está em harmonia.” (Gandhi). “É bem difícil descobrir o que gera a felicidade; pobreza e riqueza falharam nisso.” (Elbert Hubbard) Eu acho felicidade um tema muito importante. Certamente não para estancar no reducionismo acadêmico, que nas salas de aula se excedem em temas, discussões e que não rompem as teorizações. Mas fazer felicidade é a proposta. Construir artesanalmente a existência do bem estar ao ampliar o espaço a partir da discussão, da reflexão e da análise. Mas é também alcançar o bem estar na ação. Proponho a superação diante do possível mal estar, do destinado a ser infeliz para agir contrariamente. Proponho ser infiel com a infelicidade adulterando com o bem estar para a santificação do ser. Conjugar a liberdade ao fazer a felicidade… Há obstáculos nisto. Há fatores externos que impedem a liberdade dos comuns. Há situações que engessam o ato livre. E por causa destes fatores, a felicidade, frágil no ir e vir pede socorro. A felicidade pede socorro. O motivo? Ela está infeliz por se ver pulverizada no congestionamento das artérias multiformes e disformes dos interesses imediatos e externos. Infeliz por que, assim, se torna absolutamente vazia de significados. A felicidade pede socorro por que o tempo é usado para reclassificá-la. A passagem do tempo não deveria alterar significados, adjetivado como “novo, antigo”, uma vez que é usado para envelhecimento de algo eterno. Amar é coisa antiga. Ficar é atual. Abraçar e andar de mãos dadas é antigo. Pegar é atual. Roberto Carlos canta bem o amor sensível. Mas Roberto Carlos é antigo. Quem se lembra da música “eu quero uma casa no campo”? Casa no campo é cenário das histórias de Monteiro Lobato. Já a música de Zé Rodrix foi cantada com a alma por Elis Regina. Roberto, Zé, Elis todos são considerados antigos. Chorão cantava recentemente no Charlie Brown: eu vou fazer de um jeito que não vai esquecer. Fazer é sexo. Nada mais. Ser amor exige mais. Exige habilidade para ser feliz. Simples assim. Amor não tem idade; tem atitude. O amor é a aliada da felicidade. Mas vem se resignificando em conveniências. O romantismo vem se emagrecendo no tempo, e substituído pelos interesses imediatos. A paixão, mola propulsora do amor, é impulsionada só no mover do desejo. Amor, romantismo, paixão e desejo não podem fragmentar-se. É na fragmentação que empobrece os significados. Assim também não dá pra ser feliz. A felicidade pede socorro nas ondas da moda e do consumo, que levam para os bancos de areia, e empobrecem a sua essência. Quem se lembra da bola de meia do mineiríssimo Milton Nascimento? Poucos. Poucos também se lembram quando as crianças tinham somente uma bola de meia como a única opção do brincar, e também a bola de meia as faziam felizes. Hoje não basta uma bola, tem que ser Adidas. Não basta ser tênis, tem que ser Nike. As marcas é que dão o tom se uma pessoa é feliz ou infeliz. As marcas nas calças, tênis, carros colocam em guetos os “felizes” e os “infelizes”. A felicidade pede socorro quando mergulha nos lixos emocionais. O ser urbano está se...

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Quem faz amor, nasce poesia

Quem faz amor, nasce poesia

  O melhor amor é irracional, sim! Os leões matam de inveja os tímidos. Vorazmente amam! Berram. Deveríamos imitá-los para não cair nos mendigos pingos dos “ui ui uis”. O amor não tem razão. Tem pulsão! É na (re)pulsão – do racional para o irracional, tórrido e incontido – que o amor se dá (literalmente) sem as cercas da fria análise da razão humana. Se assim fosse, ou seja: se houvesse só razão, a própria razão se tornaria a senhora do sentir, distribuiria a senha para quem clama pelo prazer. Na distribuição, tudo muito certinho, só o excesso de burocracia para se obter o melhor amor. Ainda bem que o amor não tem razão. Afinal, não existe a menor lógica o amor ter razão. Basta ter o bom senso. O bom senso sente. Imagine se houvesse lógica arrumadinha para o amor existir-se em outro amor? Tipo: – pessoas bonitas só se casam com pessoas bonitas – negros só amam negras – ricos só se apaixonam por ricas – sábios só se encantam com sábias Não! Nisto não há graça. Seria uma desgraça, um tédio esta conjugação teoricamente perfeitinha. Ainda bem que não há exatidão matemática, nem certezas absurdas e nem absolutas quando o amor vem, se encaixa, chega chegando… E quando ele chega, surpreende o que é logicamente certinho. Amor é amor quando: – sempre se espera pelo inesperado – é fácil compreender o inexplicável – há mistura no heterogêneo – e no jogo da sedução, diferencia-se no homogêneo Amor que é amor entra com elegância na avenida. E a pessoa amada abre passagem… Abre passagem com ternura para o melhor samba e também … Samba! Porém o maravilhoso desatino é a apoteose, na louca explosão sem deixar a sofreguidão do abraçar sem pressa. Abraço com calor inebriante, delirante, irracional, facilmente compreensível no inexplicável, sorvendo deliciosamente o que antes era somente uma bela certeza do inesperado. Ah!… O amor também é feito, sim! “Fazer amor” está corretíssimo! Afinal, fazer amor é construí-lo no dia a dia. O amor é construído diariamente no colocar tijolo ternura por tijolo sorriso; tijolo gentilezas por tijolo carinho; tijolo querer sempre presente por tijolo deixar bilhete no espelho do banheiro. Assim, vai sendo construído: do requintadíssimo mosaico da atração ao sensível balé genitalesco. Quem não faz amor esvazia-se. Morre na preguiça do abraçar e vive para sentir o nada! Quem faz amor, nasce poesia. Se você se derreter… Desça inteira em meus lábios Que neste suave descer de carinho Deslizará… – a ternura – a paixão – e o bem querer Somente assim a minha solidão Deixará de existir Existindo, assim, só você… Em mim! Autor: JUDSON SANTOS   ATENÇÃO! Todos os direitos autorais reservados. Nenhuma parte das publicações neste site não pode ser reproduzida, armazenada ou transmitida de qualquer forma e por quaisquer meios sem a autorização prévia do...

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Papai Noel descansa no divã

Papai Noel descansa no divã

A noite mostra o movimento das ruas já sem a correria do Natal. A cidade caminha lenta, quase vazia. O verão levou muita gente para o litoral. O reveillon se aproxima, algumas casas ainda mantêm luzes piscando no beiral do telhado. Subitamente o silêncio da noite é cortado por sinos no ar. Sinos? Carruagem com animais… E voando? Um exótico veículo voador aterriza no chão da varanda da casa. Logo em seguida um velhinho cai do telhado segundos após a aterrizagem. A volumosa roupa ajuda amortecer o tombo. Ao lado das renas inquietas, ainda bem desajeitado no chão, ele se esforça para levantar. E grita: – Ei! Tem alguém em casa? Surge o dono da casa sem entender nada. – O que está acontecendo aqui? Quem é você? – Cadê a sua chaminé, moço? A sua casa não tem chaminé? – Não… Eu não tenho chaminé, amigo!!! – Poxa!… Venho de muito longe! Muito longe mesmo. Que tombo feio! Ainda bem que a sua casa tem um telhado baixo. Fui sentar no telhado, acho que meio sonolento, acabei caindo. – Estou reconhecendo você… Deve ser o… Bom, deixa pra lá. Levante-se deste chão, entre em minha casa, por favor. Mas pela porta, sim? – Tá bom… Arrastando um saco vazio, passos lentos, o velhinho já não tem aquele costumeiro sorriso generoso. O dono da casa o recebe com gentilezas. – Deite-se aqui, por favor. – Ah! Sim. Preciso mesmo me deitar… – É um divã. Mas não vou fazer um atendimento clínico; quero só conversar um pouco com você. – Tudo bem… Estou cansado. Muito, muito mesmo. (Uahh!! Bocejo) Mas pode falar. – Você está vindo de algum shopping? Evento? – Não! Estou vindo de muito longe! Lá é bem mais frio que aqui. – Hum… Sei… Você não acha melhor tirar este casaco vermelho pesado? – Não me lembro o dia em que fiquei sem ele. – Você nunca tirou este casaco? – Não. Nunca tirei esta roupa. – Você trabalha só no final de ano, não é? – Que nada! Eu trabalho o ano todo! Como eu faço todos os presentes? – Onde você mora? Nisto um barulho lá fora interrompe o diálogo. – O que foi isto? – São as minhas renas. – Ah!!!… Suas renas? – Sim, mas elas já deitaram no chão da sua varanda. Também estão cansadas. – Que bom que deitaram. Descanse também. – Pois é… Eu preciso descansar, mas posso conversar também. Afinal, falo pouco com crianças sentadas em meu colo. – Se você gosta tanto assim de crianças, por que fica tão calado com elas? – É a magia do Natal!… – Ah!… Tá… Magia? Continue… Você trabalha nas lojas dos shoppings, certo? – Não. Lá são outros. Os meus amigos também se vestem assim como eu. Eles têm empregos temporários. – Mas o seu trabalho também é temporário por um dia do mês de Dezembro. – Sim, eu trabalho muito nesta noite de Dezembro. – E dá pra ganhar dinheiro assim? Quanto você ganha a ponto de distribuir tantos presentes? – Eu não ganho nada! Apenas dou presentes. – O que te motiva a dar presentes? – Por que eu existo e sou o motivo desta festa. – O principal da festa? O centro das atenções? Sei… – Claro! Eu sou o espírito do Natal!...

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