A alma tem sede

Copo de água

 

– Garçom, mais uma!

Já passava das nove da noite. Na mesa do bar do Setor Comercial Sul, a poucos minutos da praça dos três poderes, um pequeno grupo de amigos conversam de tudo um pouco. Jorge, petista convicto, critica as medidas do presidente Collor e fala como se fosse um especialista em economia. Chegou a freqüentar a igreja Presbiteriana próximo da sua casa, mas logo desistiu. Ao lado dele com pernas insinuantes e sem esconder muita coisa, Sandra participa esporadicamente da conversa, mais sorrindo que falando. Seus olhos verdes dividiam as atenções de quem estava por perto. Coriolando o mais retraído, tímido confesso, normalmente com ares de funcionário público acomodado, votou no primeiro turno no Maluf e no segundo no Collor. Fuma o último cigarro do maço que logo amassa e pede uma cerveja. Sandra intervém:

– Lando… Bebe essa por mim, tá? Estou indo nessa…

Jorge tenta segurá-la pelo braço.

– Só mais essa cervejinha, Sandra! Só mais um pouquinho, tá?

– Mas tenho aula hoje. – diz já pegando os livros e cadernos em cima da mesa.

Ele mostra o relógio para ela e freia sua pressa.

– Aula? Que aula? Já foi! São quase 10, querida! Nem a última aula você pega mais. Se for este o motivo, já era!

– Jorge, eu estou sem carro. Está ficando tarde…

– Eu dou carona. (pisca sutilmente para ela) Fica me devendo esta gentileza, tá meu bem?

Sandra consente com a cabeça e um sorriso mostra agradecimento. Se ajeita novamente na cadeira, mas reclama de si mesma pela perda das aulas. Jorge leva seu braço sobre os ombros de Sandra e fala quase sussurrando nos seus ouvidos: “Você não vai perder… Ainda quero o seu beijo hoje!” Coriolando vendo o sorriso disfarçado nos lábios de Sandra, entendeu que rolava mais que simples carona e tenta jogar água fria nos dois.

– Ô Jorge! Você não é casa…

Jorge interrompe e desconversa rapidamente.

– Coriolando, por que você fez isto, meu amigo?

– Isso? Isso o quê?

Jorge se ajeita melhor na cadeira como quem conseguiu mudar o rumo da conversa.

– Por que você votou no Collor, meu amigo?

– Collor? Ôrra, meu! Não estou entendendo… – responde Coriolando com sotaque paulista bem carregado. Mesmo fazendo que não percebe a manobra, aceita o novo rumo do papo. – E eu tinha opção? Você acha que eu ia dar o meu voto para aquele barbudo comunista?

– E quem falou que o Lula é comunista? O Maluf? Ou o Golbery? – fala rindo e em tom de gozação.

Sandra entra simplória na conversa.

– Eu votei no Collor por que acho ele um gato.

Jorge balança a cabeça…

– Este é o nosso Brasil! Um país entregue nas mãos da elite que só fala e não faz, e quando faz alguma coisa tem super faturamento de obras. E ainda tem gente (aponta para Sandra) que se ilude com aparências. Pobre povinho brasileiro!

– Esse é o discurso de comuna que quer o poder. Todos são iguais, Jorge! Basta estar no poder.  – profetiza Coriolando.

Jorge olha nos olhos da Sandra, acaricia seu joelho e diz insinuante para ela:

– Vamos?

– E a sua mulher?

Coriolando ouvindo a pergunta de Sandra dá uma gargalhada solta. Jorge se vira para ele e critica:

– Tá rindo de quê?

– Não adianta esconder, ô meu! Ela já sabe!

Desconsertado, Jorge tenta explicar:

– Tudo bem… Tá… Tudo bem… Assumo! Sou casado. Caramba! Ela é uma mulher muito, mas muito difícil de convivência. – E pergunta para Sandra – Muda alguma coisa?

Dessa vez é ela quem fala quase em sussurro alguma coisa nos ouvidos de Jorge. Com ar de vitorioso, Jorge levanta uma das mãos e diz:

– Garçon, a conta!

Enquanto a conta não vem, os risos continuam, o papo continua nem tanto política. Subitamente um rapaz se aproxima e coloca um papel no pouco espaço entre as garrafas vazias.

– Deve ser convite do PT para mais um comício – resmunga Coriolando.

O rapaz explica que o panfleto não trata de propaganda política e pede educadamente que todos leiam o que está no folheto. “Quem sabe isto poderá matar a sede de alguém.”

– Sede? – perguntam Jorge e Sandra quase juntos.

O rapaz continua:

– Sim… A sede quando vem da alma é sintoma de insatisfação profunda. É claro que água natural não mata a sede do espírito. Mas… Jesus, sim! Ele traz respostas para as inquietações e para as insatisfações.

– Ihhh!… Já sei. É coisa de crente – resmunga Coriolando.

Mas o rapaz insiste:

– Jesus um dia ensinou que, se bebermos somente a “água” deste mundo, voltaremos sempre a ter sede.

– Mas isto não é água. É cerveja! – graceja Sandra.

– O que eu quero dizer é outra coisa… Jesus é a água! É ele quem mata a sede da alma, dá respostas para as ansiedades, e as inquietações da vida também têm respostas nos ensinos de Jesus!

Coriolando pega o paletó que estava no encosto da cadeira, abre outro maço de cigarros. O inesperado visitante, antes de se retirar do grupo, agradece a atenção e diz:

– Por favor, leiam este panfleto e pensem nisto.

Coriolando acende um cigarro:

– Agora quem precisa ir embora sou eu.

Sandra pega o copo e bebe delicadamente com jeito para chamar a atenção de Jorge que agradece o rapaz. O título do panfleto chama a atenção de Jorge por alguns minutos: SEDE DA ALMA. Ele afasta as garrafas vazias para ter mais liberdade com o braço e ler melhor o que está escrito. Mantém o rosto sério de quem se protege de alguma possível gozação. Sandra volta a falar alguma coisa em seu ouvido.

Coriolando quebra o clima e chama impaciente:

– Vamos pessoal?

Jorge paga o garçon e guarda cuidadosamente o folheto em seu bolso. Ele já não abraça Sandra com intimidade que demonstra não se importar com esta nova postura dele. Caminham em direção ao carro.

Na mesa do bar ficam somente garrafas vazias e o silêncio dos amigos tomam aquele lugar.
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Autor do texto: JUDSON SANTOS

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12 Comentários

  1. QUE DEUS CONTINUE TE USANDO PARA SALVAR VIDAS, SEI QUE DEUS ESTA CONTIGO.

  2. Denise

    Suas mensagens nos levam a viajar …….. e refletir muito….. parabéns .

  3. aldomario santos costa

    É DOM de Deus!!!!

  4. Joana G. Oliveira

    O texto nos leva a refletir no quanto as urgências do nosso dia a dia nos levam a deixar sempre pra depois as coisas de Deus. Nos saciamos das coisas materiais e deixamos de lado a sede do nosso espírito, que na verdade deveria ser prioridade. Parabéns, Professor Judson. Seus textos são muito ricos. Um abraço.

  5. Priscila de Sá Monteiro

    Bom texto e ótima mensagem cujo conteúdo desdobra em assuntos tão recorrentes no meio social, dentre eles, a má escolha e valores invertidos. Estamos vivendo em uma época muito difícil em que as pessoas dão mais valor aos prazeres momentâneos e acabam, por não pensarem nas consequências, desiludidas e abatidas. Porém, nós cristãos que conhecemos o Deus Pai, Filho e o Seu Espírito Santo, devemos cada vez mais usar das ferramentas que estão ao nosso alcance para levar salvação de Cristo às vidas aprisionadas pelo pecado. Vale também comentar sobre o título do texto, pois apesar do pecado que se apodera da mente das pessoas, a alma do pecador é sedenta e basta um gesto, um olhar ou uma rápida leitura para mudar atitudes erradas. É isso aí! Deus abençoe você, Judson! Continue escrevendo e usando seus pensamentos para a obra do Senhor!

  6. Olga Arruda Zahn

    …Um texto refletivo e muito rico com relação ao que bem conhecemos como Cristãos.
    Filosófico quanto ao entendimento e aceitação por nãos Cristãos. De fato desconhecem o sentir, o vivenciar a Cristo, como nós um dia desconhecíamos também,e por isso, rejeitam o Cristo vivo, que têm como um conceito apenas.
    Penso em meu jeito rude de viver em Cristo, que jamais alcançaremos massas tão prementes em necessidades de viver e ultrapassar a barreira do conhecimento subjetivo de quem é Cristo, para o objetivo de como conhecer e andar com Cristo, se não analisarmos como Cristãos, nossos próprios conceitos pragmáticos de como transmitir o conhecer a Cristo. Porque o fato é que conhecer a Cristo, andar com Cristo, e apresentar Cristo a pessoas que já se julgam Cristãos porque nasceram de pais que professam fé Cristã, não é nada fácil mesmo, em minha caminhada, consegui apresentar a Cristo apenas a quem anda comigo… esses o vêm em mim… assim mesmo, alguns por mais que vejam, ainda fazem igual ao apóstolo Tomé, querem sempre por a prova para ver se Cristo está mesmo em Espírito por aqui…

    Continue escrevendo textos para Cristãos e não Cristãos amigo… toda palavra tem seu propósito e não volta vazia…
    Alguns são alcançados por palavras, outros por ações, outros ainda por observar os que vivem em Cristo.
    Todavia, toda tentativa é válida e nunca sabemos o que ou a quem Deus vai usar para alcançar os que Ele deseja alcançar.

    Parabéns pelo texto…uma história bem real em nossos tempos.

    Carinho!!!

  7. Geane Carrate

    Toda mensagem embasada nos princípios divinos tende a nos fazer parar pra pensar…. Pra mim, a principal mensagem deste texto e o fato de que Deus nunca desiste dos que sao seus. O personagem do Jorge teve uma nova oportunidade de se aproximar do Senhor. A julgar pela aparente mudança no comportamento em relação a moca que o acompanharia, e possível que ele apenas a tenha levado pra casa. E possível que as palavras daquele panfleto o tenha sensibilizado de uma tal maneira que o temor do Senhor e a expectativa de que Deus saciasse a sua sede o tenha feito mudar o rumo de sua trajetória e verdadeiramente tenha mudado sua história.
    Tudo e possível, mas certo mesmo, e o que Deus nos ensinou acerca de pregar o evangelho a tempo e fora de tempo, sem se deter , se, se constranger ou se acovardar, isso sim , pode fazer toda a diferença!! Deus o abençoe amigo!!

  8. libna de paula

    Excelente texto. Nos faz refletir que não somos nada sem Cristo, nem podemos ficar somente como expectadores sem revelar e mostrar Aquele que realmente mata a nossa sede e aquieta nossos corações…foi perceptível o falar para os não cristãos que somente Jesus mata a sede da alma, não religião, nem denominação…Parabéns Judson, continue com esses textos sempre inspiradores.

  9. Noeme Martins da Silva

    Meu grande amigo e Pr. Judson, fico feliz por você está usando o seu tempo que é dádiva de Deus para levar a palavra Dele através dos seus textos maravilhosos e profundos, tenho aprendido muito e sempre que for possível mande mais e mais textos para que possamos está meditando e refletindo, bem como aprendendo. Você esta fazendo como o Salmista ora dizendo: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios, somos por Deus advertidos e conscientizados acerca da administração do tempo. A expressão contar os nossos dias dá a ideia da preciosidade do tempo e também da brevidade da nossa vida nesta existência temporal. Cada minuto nosso é precioso e indispensável. E o seu correto e oportuno aproveitamento é que nos torna sábios, isto é, capazes de vivê-los bem. Aproveite esse dom que Deus lhe deu e vá lançando a semente e com certeza ela vai cair num terreno fértil e você irá colher os frutos. Fique na paz de Deus. Com carinho. Sua amiga de sempre. Deus te abençoe!!!

  10. Dalila Dourado

    O texto traz a memória que o Evangelho é antes de tudo Reconciliação do homem com Deus, consigo mesmo e com o próximo.Se a pregação gera isto como vida, então é o Evangelho que se está pregando. Se não gera, ou é porque quem ouve não entende ou, então, é porque não é o Evangelho que está sendo pregado. É simples assim. Como na história. É ou não é?

  11. REGINA

    PARABENS! meu amigo, gostei muito do texto.Nos faz lembrar que não somos nada Sem JESUS!

  12. Marta Vieira

    “A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus?” (Salmo 42.2)
    Como o salmista Davi, nossa alma tem sede de DEUS, sempre! A sede é de encontrar e estar para sempre, eternamente com a pessoa de Deus, mas muitos de nós estamos experimentando o “distanciamento” Dele, e quase que inconscientemente achando isso a coisa mais natural possível. Que tenhamos a certeza e o desejo de estar mais e mais perto de Deus. Graça e paz sempre!

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